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terça-feira, 22 de março de 2011

CAUSAS DE DOENÇA


Prof. Francisco Baptista

Definindo-se saúde como um estado de equilíbrio dinâmico, resultante da adaptação permanente do organismo ao meio endógeno e exógeno, tem-se, por um lado, forças do organismo capazes de interpretar, reagir e defender a normalidade e, por outro lado, forças endógenas ou exógenas capazes de reduzir ou anular essa capacidade defensiva. Estas forças agressoras, conhecidas como agentes de doença, causas de doença ou determinantes de doença podem ser de natureza genética (hereditária ou não), teratogênica, física, química, biológica ou sócio-econômico-cultural.

Nos primórdios da Microbiologia, depois da destronada a teoria da geração espontânea pelos trabalhos de Pasteur, surgiu a teoria da unicausalidade para explicar a etiologia de doenças infecto-contagiosas. Esta teoria foi reforçada pelos trabalhos pioneiros de Robert Koch e de Pasteur sobre a etiologia microbiana de doenças específicas como a tuberculose, raiva, pasteurelose aviária e carbúnculo hemático. Para uma doença uma única causa. Foram assim enunciados os postulados de Koch:

1. O agente da doença deve estar presente em todos os casos da doença;
2. Deve poder-se isolar o agente da doença e obtê-lo em cultura pura;
3. Deve poder-se reproduzir a doença por inoculação de cultura pura do agente isolado;
4. Deve poder-se isolar o agente deste novo caso de doença.

Os postulados de Koch foram-se mostrando insuficientes para explicar a etiologia das doenças, mesmo daquelas tão magistralmente tratadas por ele como é caso da tuberculose. Foi-se verificando que nem sempre a presença do bacilo de Koch (Mycobacterium tuberculosis) significava a ocorrência da doença. Por outras palavras, verificou-se que o número de infectados pelo M. tuberculosis é maior do que o número de doentes. Então, para que um indivíduo desenvolva a doença não basta a presença nele do agente específico da doença, neste caso do M. tuberculosis; é necessário que sobre o indivíduo atuem outras forças (causas) capazes de, em conjunto com o agente específico, provocarem a doença específica. O agente específico é a causa necessária. As outras forças são ditas causas predisponentes. Causa necessária e causas predisponentes formam a causa suficiente. Assim, as doenças são multicausais, podendo ter distintas causas suficientes.

As explicações etiológicas da teoria da multicausalidade são dadas pelos postulados de Evans. Neles se estabelece que a etiologia das doenças é determinada por conjuntos de fatores capazes de condicionar freqüências de processos mórbidos significativamente maiores nas populações expostas.

A doença é conseqüência da ação de um conjunto de fatores (causa). Como a doença e a causa podem variar, pode-se dizer que a primeira é a variável dependente ou resposta e a segunda a variável independente ou explanatória. Dessa forma, o Mycobacterium tuberculosis, associado a diferentes fatores predisponentes se constitui na variável explanatória (causa multifatorial) e a tuberculose (doença) é a variável resposta. Em algumas situações a causa necessária é também suficiente como é o caso da infecção do homem pelo vírus rábico. Em doenças que não se constituem em entidades mórbidas específicas, particularmente nas síndromes, as causas suficientes não têm causa necessária.

Variáveis resposta e variáveis explanatórias podem estar associadas positiva ou negativamente. No primeiro caso a ocorrência simultânea de ambas deve ter freqüência superior àquela devida ao acaso; no segundo caso a ocorrência simultânea de ambas deve ter freqüência inferior à devida ao acaso; neste caso a variável explanatória tem papel protetor. As associações estatísticas positivas com a doença indicam relação causal. Contudo, nem todas as associações estatísticas positivas são causais. Se determinado agente provocar duas lesões orgânicas diferentes e independentes uma da outra em certa doença, pode-se dizer que existe associação positiva, estatística e causal entre cada lesão (variável resposta) e o agente (variável explanatória), mas embora continue a haver associação positiva estatística entre as duas variáveis respostas, não existe relação causal entre ambas. A probabilidade de ocorrência de uma das lesões aumenta com a presença do agente e da outra lesão e, por isso, estes são ditos fatores de risco para aquela. Como uma lesão é fator de risco para a outra, este fator de risco não é causal; contudo, o agente é fator de risco para qualquer das lesões e neste caso trata-se de um fator de risco causal.

Muitas causas de doença são passíveis de transferência de um hospedeiro para outro. Esta transferência pode acontecer por contato direto, indireto ou através de vetores. O contato direto faz-se de hospedeiro para hospedeiro e pressupõe a transferência da causa de doença por aposição de tecidos (beijo, relação sexual, amamentação); no contato indireto a causa da doença é transferida de um hospedeiro para outro, através de um veículo que pode ser o ar, alimentos, água, objetos e utensílios (fômites); vetores são animais invertebrados que podem simplesmente e de forma mecânica proceder à transferência de agentes biológicos de doença (vetores mecânicos), ou fazerem a transferência depois do agente biológico de doença ter cumprido parte do seu ciclo neles (vetores biológicos). Quando a transmissão da causa da doença se faz dentro da mesma geração (indivíduo para indivíduo) diz-se que é horizontal e quando se faz de uma geração para a seguinte, por exemplo, de mãe para filho, por via transplacentária ou transovariana, diz-se que é vertical. Quando a fonte de infecção (vertebrado que alberga e elimina o agente biológico de doença) e o hospedeiro susceptível ocupam o mesmo espaço e o material contaminante que se transfere de um para o outro é fresco, a transmissão recebe o nome de contágio. Assim, doenças contagiosas são aquelas que se podem propagar de um hospedeiro para outro quando ambos ocupam o mesmo espaço e o material contaminante é de emissão recente (fresco).

São determinantes de doença nos animais e no homem fatores exógenos (ambientais) ou endógenos (hereditários ou não). Os fatores ambientais podem ser físicos (temperatura e umidade), químicos (ácidos e bases fortes), biológicos (vírus, bactérias, fungos, protozoários e helmintos) ou sociais como pobreza, guerra e cultura. Na maior parte dos casos é a associação destes fatores que provoca alterações orgânicas ou funcionais, de forma permanente ou temporária. Na verdade, hospedeiros e determinantes ou agentes de doença fazem parte do ambiente. 
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Bibliografia

1. FORATTINI, Oswaldo Paulo. Epidemiologia Geral. 2ª Ed. Depto de Epidemiologia: Faculdade de Saúde Pública – USP. Editora Artes Médicas, 1996.
2. LESER, Walter. et al. Elementos de Epidemiologia Geral. São Paulo – Rio de Janeiro – Belo Horizonte: Editora Atheneu, 1997.
3. SAÚDE, Ministério da. Estudos Epidemiológicos. Ed. Única. Fundação Nacional da Saúde – Vigilância Epidemiológica. Agosto/2000
4. PEREIRA, Mauricío Gomes. Epidemiologia: Teoria e Prática. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan S.A.,2001.
5. ROUQUAYROL, Maria Zélia. et al. Epidemiologia e Saúde. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Editora Medsi, 1999.
6. JEKEL, James F. et al. Epidemiologia, Bioestatística e Medicina Preventiva. 1ª Ed. Porto Alegre: Editora Artmed S.A., 2002.

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